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Redução da velocidade máxima das vias urbanas no Distrito Federal é pauta de encontro no Senado

A Rodas da Paz e o pai do Raul Aragão, ciclista morto por Johann Hamonnai, 18 anos, que conduzia seu carro a 95km/h (relembre o caso aqui), Helder Gondim, se reuniram no dia 07/11/2017, com o líder da bancada do DF no Congresso Nacional, o Senador Helio José, e com o Senador Paulo Paim. Na ocasião foi solicitado ao Senador do DF o empenho dele e de toda a bancada para tratar junto ao GDF de questões ligadas à segurança no trânsito em nossas cidades. Dentre as pautas apresentadas a principal delas é a redução da velocidade de nossas vias. O representante da ONG entregou os ofícios (veja os documentos abaixo) já encaminhados ao GDF com as solicitações e o líder da bancada se comprometeu a atuar junto ao governo local para tratar do assunto.

Já o Senador Paulo Paim se comprometeu a realizar junto com a ONG uma audiência pública para debater o tema.

Ofícios

Oficio 18 DETRAN v2

Oficio 19 SEMOB v2

Redução dos limites de velocidade: o que você precisa saber sobre isso

1. Por que reduzir os limites de velocidade? 

A redução dos limites de velocidade das vias urbanas é uma medida que vem sendo cada vez mais adotada em todo o mundo como forma de reduzir as mortes no trânsito e humanizar as vias. A medida ajuda a melhorar a fluidez do trânsito e torna a cidade mais acessível a todos.
Velocidade mais baixa significa mais incentivo aos meios sustentáveis de deslocamento, como caminhar, pedalar ou utilizar o transporte público, possibilitando segurança, conforto e fluidez nos trajetos.

Ruas com velocidades menores favorecem o compartilhamento da via entre motoristas e ciclistas, facilitam a travessia de pedestres e permitem que crianças brinquem nas ruas como costumavam fazer até tempos atrás. Com menos pressa, a gente convive mais, cria mais empatia, e percebe mais o que ocorre ao nosso redor.
A cultura da velocidade motorizada faz parte de um modelo de urbanização onde as ruas são apenas parte do caminho, e nunca ponto de parada e convivência. Essa ideia faz sentido para estradas, mas não cabe para as vias urbanas, onde o conceito de ruas completas é muito mais adequado do que o de via expressa.

2. Essa ideia  tem base em algum estudo?

A redução dos limites de velocidade nas vias urbanas é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), fundamentada nos estudos mais atuais sobre trânsito e na experiência concreta de cidades como São Paulo, Curitiba e Fortaleza.

Em um atropelamento a 64km/h, 85% dos pedestres atingidos morrem e nenhum sai ileso. A 32km/h, 5% morrem e 30% sobrevivem ilesos. O gráfico e o vídeo a seguir mostram como uma velocidade menor é a diferença entre sobreviver e morrer em um atropelamento.

Ademais, menor velocidade significa maior tempo de reação por parte do motorista e de todos os usuários – o que é decisivo para se evitar uma colisão, além de uma menor distância de parada do veículo após a freada.

3. Mas reduzir os limites de velocidade não vai criar congestionamento?

Pelo contrário, quanto maior é a velocidade dos carros maior é a distância necessária entre eles, o que significa que a 80km/h cabem menos carros na pista do que se eles estivessem a 50km/h, como se pode ver pelo gráfico abaixo. Portanto, em velocidades menores, a capacidade da via aumenta, fazendo com que um número maior de veículos circule no mesmo período de tempo, permitindo melhor distribuição do fluxo e evitando a formação de gargalos e afunilamentos em pontos de estreitamento de pistas, por exemplo.

O que de fato cria os congestionamentos é o excesso de veículos e as interrupções na fluidez muitas vezes causados pelas colisões que a alta velocidade traz. Diferentemente, a redução da velocidade máxima faz muitas vezes com que a velocidade média da via aumente, como ocorreu em São Paulo, nas vias Marginais.

4. Só reduzir a velocidade resolve?

Reduzir os limites de velocidade é importante mas deve ser acompanhado de outras medidas. Um comportamento comum de motoristas é dirigir acima da velocidade e apenas frear quando há fiscalização por pardal ou blitz de agentes de trânsito. Para se garantir um limite de velocidade compatível com a vida urbana é preciso mudar o desenho viário de nossas cidades, incluindo elementos de moderação de tráfego nas vias (balões, lombofaixa, canteiros, etc).  A redução dos limites de velocidade é uma medida que deve ser acompanhada também de ações educativas, para as pessoas entenderem que não se trata de “indústria da multa” ou medida arrecadatória, e sim medida de segurança para toda a população. Não existe indústria da multa, existe uma cultura de conivência com a alta velocidade nas vias, muito estimulada pela indústria automobilística através da publicidade.

5. Algum outro país reduziu velocidade máxima da via que impactou positivamente no número de mortes no trânsito?

Sim. A redução da velocidade máxima da via em diversos países como África do Sul, Estados Unidos, França e Nova Zelândia, entre outros, resultou em uma redução das colisões de 8% a 40% nos anos recentes. Nos EUA, por exemplo, entre 1987 e 1988, 40 de seus estados elevaram o limite de velocidade nas rodovias interestaduais de 88 km/h para 104 km/h. No mesmo período, houve um aumento de 20 a 25% no número de mortes nessas vias, segundo o documento de referência da Organização Mundial de Saúde (OMS) “Gestão da Velocidade“.

O Brasil é um dos países com a maior taxa de óbitos no trânsito no mundo e a redução dos limites de velocidade é uma das ações mais importantes para combater esse grave problema.

 

A velocidade não compensa

por David Duarte Lima, presidente do Instituto Paz no Trânsito, professor do Departamento de Saúde Coletiva da UnB e fundador da ONG Rodas da Paz

A velocidade é um dos principais fatores de acidentes de trânsito. Sabe-se, por exemplo, que quando se passa de 70 Km/h para 90 Km/h o risco de acidente fatal é multiplicado por dois. Ou seja, no caso citado, um aumento de 28,6% na velocidade implica num aumento de 100% no risco de acidente. Quando passamos de 70 Km/h para 100 Km/h, esse risco é multiplicado por três.

Uma experiência realizada na Alemanha com dois motoristas mostrou alguns aspectos interessantes. Ambos percorreram mil milhas (1609 Km) seguindo o mesmo percurso. O primeiro motorista tinha a missão de chegar ao final do trajeto o mais rápido possível. Ao segundo, por outro lado, foi ordenado seguir o fluxo de veículos no mesmo ritmo, correndo o mínimo de riscos.

Os resultados dessa experiência nos convida à reflexão.

O motorista intrépido dirigiu durante 20 horas e 12 minutos, ultrapassou 2004 veículos, foi ultrapassado 13 vezes e teve de frear 1339 vezes. O motorista prudente dirigiu durante 20 horas e 43 minutos, ultrapassou 640 veículos, foi ultrapassado por 142 e teve de usar o freio 652 vezes. Em resumo, o primeiro motorista correu três vezes mais risco que o segundo e ganhou com isso 31 minutos, ou seja menos 3% de tempo! Isso sem contar o maior desgaste do veículo, maior consumo de combustível, entre outros aspectos negativos.

A experiência descrita acima tem um valor relativo. Outras variáveis, como clima, maneira de dirigir, tipo de veículo, situação no tráfego, entre outras merecem ser consideradas, pois podem modificar os resultados.

E em Brasília, como isso acontece na prática? Bom, tomemos o caso do Eixo Rodoviário. Com base em dados internacionais, adaptados à nossa realidade, construí a tabela abaixo. Na primeira coluna temos diferentes velocidades desenvolvidas. Na segunda, temos o tempo de percurso das extremidades do Eixo Rodoviário até a Rodoviária (aproximadamente 6 quilômetros).  Finalmente, na terceira coluna temos os riscos aproximados de acidente fatal para cada velocidade, em relação a 60 Km/h.

Velocidade (Km/h) Tempo (min) Risco
60 6,0 1
70 5,2 1,4
80 4,5 2
90 4,0 3
100 3,6 5

A tabela mostra claramente que uma pessoa que está dirigindo a 100 Km/h corre cinco vezes mais risco de envolver-se num acidente fatal que aquela que dirige a 60 Km/h; a velocidade aumentou 67%, enquanto o risco de acidentes deu um salto estratosférico de 500%!

Outro aspecto é o tempo. Porque as pessoas correm? Para ganhar tempo, óbvio. Porém, é racional passar no “Eixão” a 120 Km/h? Faça as contas: ganhar dois minutos para chegar ao trabalho é extremamente importante? Lógico que não. Ricardo Semler diz que as pessoas deveriam aprender a medir o tempo por décadas. Além disso, como já observou o jornalista Alexandre Garcia, dirigir em velocidades razoáveis diminui muito o estresse. Resumindo: essa forma frenética de dirigir adotada por alguns motoristas, serve mais para aumentar os riscos e o entupimento das artérias do que ganhar tempo. Se ganhar dois minutos é importantíssimo para você, saia um pouquinho mais cedo.

No final de um ano, se todos se esforçarem, dirigindo em velocidades compatíveis e respeitando as leis de trânsito, o resultado será menos mortes, menos sofrimento. E não existe recompensa maior que a vida. Faça a sua parte.