Por Raulzito, continuamos

 

Depois de quase 15 anos de trabalho voluntário diário e de importantes conquistas na mobilidade urbana do DF, a perda do querido amigo Raul Aragão para a violência no trânsito nos deixa consternados. Por mais que argumentemos que a velocidade atual das vias é perigosa para todos, vidas continuam sendo perdidas.

Raul era uma força mobilizadora dentro do nosso grupo. Colocava sua alegria em tudo, a levava para onde ia, junto com a sua bicicleta – que carregava no coração. Ele se sentia vivo pedalando e lutando pelo espaço para quem pedala nesta Brasília tão centrada no carro. Fará muita, muita falta.

A Rodas da Paz luta pelo convívio pacífico entre os diferentes modos de se locomover. Em agosto de 2017, nosso Passeio anual teve como tema “Sem pressa, todo mundo chega bem”, definido em parceria com o grupo Caça-Pedal, da Ceilândia. O tema foi inspirado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda até 50 km/h como limite de velocidade para vias urbanas.

Se uma colisão acontece com o carro a 80 km/h, é praticamente zero a possibilidade de sobrevivência das pessoas atingidas. A 64 km/h, 85% morrem e ninguém sai ileso. No entanto, apenas 5% morrem e 30% ficam ilesos se a velocidade for de 32 km/h.

Mesmo quando não há infração, a alta velocidade permitida nas vias pode transformar a todos em vítimas.

Nada suporta o impacto violento de um carro veloz ao atingir um ser humano. O debate urgente a ser feito não é a roupa especial, o sapato ideal ou o equipamento de segurança recomendado.

A melhor maneira de proteção é e será sempre o respeito à vida e à mobilidade plural. Para que isso aconteça, é fundamental que haja velocidade compatível entre os diferentes veículos, motorizados ou não.

Nossas ruas deveriam impedir velocidades altas. Quando a velocidade é mais baixa, tudo fica mais fácil: a travessia de pedestres; o compartilhamento da via entre motoristas e ciclistas; o uso de meios sustentáveis de deslocamento – como caminhar, pedalar e usar o transporte público; a fluidez nos trajetos; e uma convivência humanizada por todas as cidades.

Somente com menos pressa teremos a chance de uma mobilidade respeitosa à vida. Reduza a velocidade, compartilhe a via e dê a preferência. Proteja a sua vida e a dos outros.

A cidade deve ser das pessoas. Vamos continuar inspirados por esse ideal – que era o compromisso de vida do alegre Raulzito.

Vá em paz, Raul. “Suave na nave”.

 

Brasília, 22 de outubro de 2017.

 

Com muita saudade e carinho,

voluntárias e voluntários da Rodas da Paz.

 

 

9 ideias sobre “Por Raulzito, continuamos

  1. Pedro Teixeira

    Repasso um pequeno texto que escrevi a respeito, com o objetivo de tentar diminuir a dor dos que foram mais afetados pela súbita partida.

    Não cheguei a conhecer esse rapaz.
    Para ser mais preciso, jamais sequer tomei conhecimento de sua estada entre nós, aqui no plano físico-material.
    Entretanto, numa rápida olhada nas três fotos que ilustram a reportagem do Metrópoles é possível perceber-se sua alegria esfuziante e as boas energias que emanavam de sua pessoa.
    Infelizmente a Igreja Católica, há cerca de um milênio e meio, por razões que não cabe aqui debater, optou pela visão não reencarnacionista do ser humano.
    Para reforçar a imposição cultural de sua visão, numa época em que a imprensa era uma jovem bebê de 50 anos, a Igreja revestiu o naturalíssimo fenômeno da morte física de uma aura de tragédia, de perda e separação definitivas do ente querido que partia, até um nebuloso e indefinido reencontro num insondável futuro.
    Sabemos que a eterna e imutável Lei da Ação e Reação, mais conhecida como Justiça Divina ou Justiça Cósmica, garante de maneira absolutamente isenta a Harmonia da Criação.
    Daí porque, em nosso atual nível de evolução, não nos é dado conhecer as condicionantes do passado que conduziram ao desencarne hoje do nosso irmão Raul.
    Podemos apenas ter a certeza de que as realizações dele enquanto encarnado asseguram-lhe uma recepção calorosa e amorosa por seus mentores e afetos do Plano Espiritual.
    E que seu exemplo de vida possa inspirar outros a continuar difundindo suas idéias e distribuindo suas doações de amor ao próximo onde quer que surja a oportunidade.
    Que o mesmo conjunto de espíritos possa infundir sentimentos de conforto naqueles que sofrem com sua súbita e inesperada partida.

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  2. Valter Fernandes Bustos

    Atônito, e sem encontrar palavras para externar minha indignação e tristeza diante da perda de um amigo de todos, devotado à bicicleta. Tudo, e todas as perdas relacionadas com a morte ou sequelas sofridas por ciclistas, possuem diversas motivações. A mais grave de todas e também motivadora chama-se “Código de Trânsito Brasileiro”, Lei n 9.503 de 23 de setembro de 1997. O CTB é omisso na consideração das infrações (gravidade), e brando na aplicação das punições (dosimetria). O Brasil é o único país do mundo ocidental onde um sujeito atropela e mata um ciclista. Preso, é levado a uma delegacia de polícia, presta depoimento a um delegado, paga fiança e vai dormir em casa. Condenado, se for, será por homicídio doloso “sem a intenção de matar”, e como sabemos, não irá cumprir pena alguma. Uma família foi destruída e nunca haverá reparação, enquanto esse sujeito poderá dirigir novamente e matar ou sequelar mais vezes. Já perdi a conta dos conhecidos e amigos que se foram. Todos eles, pessoas 100% do bem, fans e ativistas sinceros pela causa das magrelas. Vá com Deus Raulzito e que esse pedal de leve para as paragens celestiais. Quando os anjos se cansam de bater asas, eles usam bicicletas.

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  3. Sueli matos

    Difícil de acreditar,tamanha perda.
    Eu comecei minha trajetória nos esportes através da bicicleta,pedalando nas ruas de Brasília.Mas devido as dificuldades,a falta de respeito no trânsito,abri mão desse camelo como é chamada,pelos ciclistas…Por várias vezes sofri acidentes por imprudência desses infelizes; (motoristas) sem noção! Estou muito triste,com tudo isso! Inacreditável.

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