A paz no trânsito também está nas mãos das campanhas do GDF

A paz no trânsito também está nas mãos das campanhas do GDF

O GDF lançou nessa semana campanha voltada para a relação da bicicleta no trânsito. Campanhas educativas sobre a bicicleta na cidade buscam a mudança de comportamento e visam a melhoria do ambiente para a mobilidade urbana pacífica e sustentável. No caso de comerciais para televisão, é importante considerar o diálogo travado pelo texto, a imagem e o som. A análise permanente do material contribui para a melhoria constante dos vídeos produzidos e da influência que possuem no cotidiano. Sob esta perspectiva, analisamos o comercial “A paz no trânsito está em nossas mãos”, divulgado no meio de junho de 2015, e apresentamos algumas sugestões para novas peças educativas.

Informações muito importantes são exibidas no vídeo, como o direito do ciclista de usar a via e também a necessidade de reduzir a velocidade e manter a distância de 1,5m para a ultrapassagem da bicicleta. Esse enfoque foi reivindicado por grupos de ciclistas como a Rodas da Paz, Bike Anjo e União de Ciclistas do Brasil em reunião com a SEMOB, empresa AV Comunicação e DETRAN, ocorrida em 11 de maio de 2015. A incorporação dessas sugestões é positiva para mostrar que lugar de bicicleta é também na rua. O conceito do vídeo é interessante, pois mostra que a transformação é viável e apresenta a ideia inicialmente com uma personagem feminina – que possui demandas próprias em meio à violência no trânsito. No transcorrer do vídeo, o círculo vermelho amarra a proposta, lembrando o selo da mão em sinal de basta, utilizado na época da campanha da faixa de pedestres. Contudo, ainda há alguns elementos relevantes para serem considerados em materiais futuros para avançarmos cada vez mais na qualidade da informação:

a) Busca de equilíbrio da representação da diversidade de personagens. Por um lado a comunicação pública se sensibilizou na escolha de personagens negra e feminina em alguns momentos. Por outro lado, o comercial concedeu um enfoque desproporcional ao uso da bicicleta como atividade física de treino. Os atletas devem ser valorizados e possuem necessidades específicas no trânsito. Os treinos de speed nas ruas de Brasília já são patrimônio da cidade. Entretanto, mais de 96% dos usuários da bicicleta no DF tem como finalidade deslocamentos para trabalho ou estudo e esta opção se deve principalmente pela economia financeira (segundo dados de 2009 apresentados no PDTU de 2011). Estes ciclistas não pedalam em grupo. Além disso, mais da metade das mortes de ciclistas são causadas em rodovias, em regiões afastadas do centro da cidade. Esses são os mais vulneráveis nesta equação e necessitam maior visibilidade;

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b) A escolha dos itens de segurança apresentados. Quando a locução cita os equipamentos que aumentam a segurança, as setas apontam para o capacete e para o espelho retrovisor da bicicleta. Na verdade, o capacete não é um item de segurança obrigatório segundo o Código Brasileiro de Trânsito (CBT) e o retrovisor, embora seja item obrigatório, não está entre os principais itens de proteção para o ciclista. A preocupação com a sinalização noturna (refletores ou luzes), que é obrigatória de acordo com o artigo 105 do CTB, deve ser enfatizada. De acordo com os dados do próprio DETRAN, parte expressiva das ocorrências de trânsito envolvendo ciclistas ocorrem no período noturno. Valeria ainda uma mensagem final como “O principal equipamento de segurança do ciclista é a atenção redobrada do motorista”, como diria a cicloativista, arquiteta e jornalista Renata Falzoni, passando a mensagem que no trânsito o maior deve zelar pela segurança do menor.

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c) A sinalização com as mãos do usuário de bicicleta, marcada de vermelho. Um dos pontos críticos em relação à segurança do ciclista são os cruzamentos e conversões. Outros exemplos acompanhados de manobra após o sinal do ciclista podem ser apresentados, como com um automóvel reduzindo a velocidade e deixando o ciclista seguir antes de fazer a conversão à direita. Ou seja, quanto mais explicito para o telespectador qual o comportamento esperado do motorista na interação entre carro e bicicleta para evitar incidentes melhor. Para isso, é possível agregar exemplos de situações realistas do dia a dia, como ciclistas em balões e em ruas com saída a direita;

d) A escolha dos locais e vias. Um dos ciclistas aparece pedalando no eixinho, uma via de alta velocidade no Plano Piloto, que é pouco utilizada, inclusive por ciclistas experientes. Há várias vias de baixa velocidade no DF que tem uso maior de bicicleta e que também podem ser mostradas, refletindo com mais fidelidade a realidade da cidade. Situações em balões, nas descidas de tesourinhas, por exemplo, teriam bom efeito em termos de mensagem de segurança;

e) É importante diferenciar travessia de ciclovia e faixa de pedestre. O vídeo exibe um cruzamento onde a ciclista atravessa desmontada na faixa como pedestre, porém, poderia também tratar também dos cruzamentos das ciclovias, uma situação de risco elevado e uma dúvida recorrente dos cidadãos. Afinal, além de não haver pintura adequada nos cruzamentos das ciclovias hoje, há placas de “Pare” direcionadas para o usuário da bicicleta – desrespeitando o artigo 214 do CTB – sem qualquer explicação, principalmente para leigos, sobre como agir em relação à sinalização horizontal e vertical inadequadas;

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f) Por fim, para falar na paz no trânsito, é interessante transmitir uma imagem mais de calma, tranquilidade e harmonia e menos de velocidade, adrenalina, risco e tensão, que pode desestimular o uso da bicicleta pelo cidadão comum. Pode-se enfatizar menos os limites físicos e dificuldades e se exaltar mais as vantagens do uso rotineiro da bicicleta;

Uma campanha desse tipo, realizada em médio prazo, tem a oportunidade de mostrar de modo mais enfático em peças futuras a utilização da bicicleta para o gozo de outros direitos: trabalho, educação, saúde, lazer e cultura. Isto é, exibir mães e pais carregando crianças em suas cadeirinhas, jovens utilizando este veículo para chegar à escola ou à universidade, e trabalhadores transportando objetos em bicicletas cargueiras, por exemplo.

Entre 2011 e 2013, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (DETRAN/DF) empenhou apenas 11,8% do orçamento autorizado para as campanhas educativas. As mensagens educativas veiculadas de forma massiva para orientar os motoristas de carros em relação ao seu comportamento diante de um ciclista precisam ser frequentes para que se naturalize a relação respeitosa entre motoristas e ciclistas.

Queremos uma comunicação efetiva, e para isso é fundamental superar estereótipos, aprofundar o conhecimento da realidade e buscar informações que ajudem a identificar quais mensagens educativas precisam ser apresentadas e repetidas com maior frequência, percebendo também o que realmente estamos falando para a população.

Veja aqui exemplos de outras campanhas brasileiras.

 

4 comments

Achei louvável este primeiro momento de campanha educativa do GDF. Tanto é que salvei o vídeo e enviei a todos os que conheço e moram em outros estados.
Achei muito importante a análise desta ONG e admito que não havia pensado em todos este pontos antes de ler a publicação.

Gostaria, novamente, de me colocar a disposição para qualquer apoio à esta ONG. Já que, mesmo inscrito na III Formação de Voluntários da Rodas da Paz, não recebi nenhum contato para fazer o curso com intuito de ajudar esta ONG.

ATT
Wellington!

Wellington,
Ficamos satisfeitos que a nossa análise tenha sido útil e contribuído para o debate sobre as campanhas educativas para a mobilidade urbana. Obrigado pelo comentário!
Lamentamos a demora em responder a todos que se inscreveram na III Formação de Voluntários da Rodas da Paz. Até o último minuto, estávamos tentando ampliar a possibilidade da maioria dos inscritos participarem, de acordo com os cancelamentos dos selecionados. Infelizmente, o espaço é limitado para receber todos os voluntários que desejam participar.
Agradecemos a disposição!
Equipe Rodas da Paz

Obrigado pela resposta.

Quanto a não realização do curso, sem Problemas, compreendo a dificuldade. Quando citei a inscrição foi para deixar claro que podem contar comigo mesmo sem ter conseguido fazer o curso. Desculpe-me se pareceu uma reclamação, mas na verdade é uma forma de disponibilizar-me para ajudar.

Acho que é dever de todos nós contribuirmos para um trânsito mais equilibrado!

att

Wellington

Desde quando a Lei admite o “bonde” ciclístico?
O CTB é claríssimo quanto ao posicionamento do ciclista tanto na pista quanto na faixa. Vide o art. 58 “… nos bordos …”. Como bordo/a é espaço físico específico – é o limite lateral – é lugar para apenas UM ciclista por vez. Fila indiana, portanto.
Caso contrário, como mostrado o erro no filmete absurdo, ilegal e provocador de conflitos no trânsito, a Lei teria de ter previsto o trânsito de bicicletas no centro das faixas.
Por óbvio.
Com cidadãos assim, que tentam manipular e burlar a lei – invadem o espaço alheio e querem defesa na base do “meu erro não justifica outro (menos de 1,5m)” para levar vantagem indevida e otoridades que ignoram a lei e se omitem no cumprimento de suas obrigações, não é inexplicável a acidentalidade no trânsito.
Pelo contrário, aí estão os culpados.

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