Arquivo mensais:outubro 2017

O que a Rodas da Paz acha de ciclistas e pedestres serem multados?

A finalidade da política pública de gestão do trânsito é melhorar a segurança e garantir os direitos da população, não apenas fiscalizar regras por si só. Por isso, toda atuação do Estado no sentido de fiscalização deve ser bem coordenada com outras medidas como a oferta de infraestrutura e ações educativas visando a mudança efetiva de comportamento.

Na situação atual das cidades brasileiras, canalizar recursos públicos, efetivo policial e agentes de trânsito para fiscalizar e punir pedestres e ciclistas seria uma ação altamente ineficiente para atingir o objetivo de melhoria da segurança no trânsito. Essa medida, hoje, resultaria numa inversão de prioridades, penalizando ainda mais o transporte ativo e desestimulando a escolha pela mobilidade sustentável. Ao contrário, o esforço de fiscalização deve ser orientado proporcionalmente para quem causa o maior número de mortes no trânsito, os automóveis.

Um ótimo exemplo que ajuda a compreender a questão é o que aconteceu em SP, após a implementação da ciclovia da Avenida Paulista. As pesquisas realizadas indicaram que o número de ciclistas na contramão ou na calçada foi reduzido de forma avassaladora após a implantação da infraestrutura cicloviária, caindo de 20% e 16% nas medições anteriores à ciclovia para 4% na véspera da sua inauguração e, finalmente, para 1% após a estrutura estar plenamente estabelecida. Já ciclistas que usavam a calçada registravam percentuais similares, de 27% e 18% antes da ciclovia, caindo para 11% na véspera da inauguração e apenas 2% após a implantação total. (Veja o estudo completo aqui)

Ou seja, a oferta de estrutura adequada se revelou essencial para permitir o comportamento seguro. E na ausência de condições mínimas, que garantam o direito de deslocamento das pessoas, o comportamento indesejado prevalece.

Colocando em números, Brasília possui 13.741 km de vias pavimentada que priorizam a circulação de veículos motorizados e apenas 421 km de ciclovias desconexas. Uma cidade assim leva os ciclistas a realizarem trajetos muitas vezes improvisados, tendo que fazer trechos de contramão ou na calçada, visando a sua própria preservação – sobretudo ciclistas iniciantes. O mesmo ocorre com os pedestres, quando não há calçadas nem opções adequadas de travessia.

Portanto, antes de oferecer condições mínimas de circulação para o uso da bicicleta, a fiscalização se torna cara e ineficiente. Quando pelo menos 25% da malha viária do DF for composta por vias cicláveis (estamos em 3% em 2017) e a participação da bicicleta for superior a 10% (último dado indica 2% em 2009) aí sim talvez seja o momento de começar a pensar em multar ciclistas.

Respeito à vida antes de tudo: repúdio à violência sofrida por ciclistas após o velório de Raul Aragão

A Rodas da Paz repudia veementemente as ações adotadas pelo motorista Tiago Marcel Canabarro que tentou por diversas vezes atingir com seu automóvel um grupo de ciclista em Brasília na tarde do dia 23/10/2017, conforme amplamente noticiado pela mídia. Buscamos construir um trânsito mais humano para nossa cidade, com respeito a todos que ocupam as vias e com respeito à mobilidade plural. A utilização da bicicleta como meio de transporte em Brasília cresce a cada dia e o compartilhamento do espaço público com carros, ônibus e motos não pode transformar nossas vias em um palco de guerra. Antes de tudo precisamos respeitar a vida. O caso foi registrado pela polícia e um processo está em andamento. Segue abaixo carta dos ciclistas expondo ocorrido.

Essa segunda (23/10/2017) foi um dia tenso e emotivo. Pela manhã, houve o velório do nosso amigo Raul Aragão, vítima de atropelamento no fim de semana, e, logo depois, fomos em grupo até o balão do aeroporto junto com o carro funerário. Voltamos juntos até a 214 Sul. De lá, o grupo maior se dividiu em bondes para lugares diferentes. O grupo em que eu estava contava com seis ciclistas.

Seguíamos em direção ao Sudoeste, trafegando na W4 Sul e ocupando uma das duas faixas de rolamento – como é o recomendado, principalmente quando se está pedalando em grupo. Agimos conforme postula o artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), segundo o qual, na falta de local exclusivo em condições de uso, a circulação de bicicletas deve se dar na ”pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores”. 
Na altura da 713 Sul, um veículo com placa JGE-2538 emparelhou do nosso lado, e o motorista começou a nos ofender, falando coisas como “O que vocês estão fazendo na rua, seus viados? Vão pra calçada”, “Vocês são uns pau de rato, não são ciclistas de verdade” e “Depois que é atropelado não sabe por quê”. 
Depois das ofensas, acelerou o carro, fechando e tirando fina do grupo. Logo à frente, ficou parado no engarrafamento do balão da 713/712. 
Alcançamos o veículo, e iniciou-se uma discussão. Nós o questionamos e afirmamos nosso direito de estarmos na rua, enquanto ele seguia com ofensas e xingamentos. Quando o motorista foi fazer o balão, em vez de seguir seu caminho reto – já que, segundo ele,  estava levando sua filha ao colégio -, fez um giro de 360° e acelerou o carro no sentido da contramão em rota de colisão a um de nós, que sacou a tranca da bicicleta e arremessou no parabrisa do carro para se defender. 
Essa foi a primeira tentativa de atropelamento.
Então o motorista fez o balão novamente, seguiu em direção ao Parque da Cidade, retornou e acelerou VIOLENTAMENTE sobre o canteiro central, quase atropelando um dos ciclistas, além de um vigia de carro que estava no local.
Essa foi a segunda tentativa de atropelamento.
O argumento do motorista que tentou o homicídio jogando seu carro sobre nós é absolutamente falso! Ele afirma estar fugindo do engarrafamento e protegendo a filha.
Se ele queria mesmo proteger sua filha, que supostamente estava no carro, levantamos os questionamentos:
1° Por que ele iniciou a confusão desferindo xingamentos contra nós? 
2° Por que ele não foi embora quando chegou ao balão, em vez de retornar e avançar com o carro – uma armadura de metal – contra nós?  
3° Por que ele foi em direção ao Parque da Cidade e retornou em nossa direção, pela SEGUNDA vez e (supostamente) com a filha no carro, tentando nos atropelar em cima do canteiro?
4º É justo tirar a vida de alguém por causa de um parabrisa quebrado?
5° Mesmo que não pudéssemos circular na via, o que é SIM PERMITIDO, ele quebrou a própria lógica subindo no canteiro, área proibida a veículos automotores. Qual é a coerência entre a sua fala e a sua ação?
A essas perguntas, esse senhor sobre rodas terá de responder em juízo. Várias pessoas testemunharam a sequência dos fatos.
Após a segunda tentativa de assassinato por atropelamento, o motorista se EVADIU do local nos ameaçando de morte, cantando pneu e subindo na calçada. 
Para nossa surpresa, poucos minutos depois, quando estávamos indo embora, muito abalados, no semáforo da 700/900 Sul, nós o vimos novamente. Ele parou o carro na contramão e desceu com uma faca em punho. Proferiu xingamentos irracionais, ameaças e mais ameaças, carteirada – disse que nós estávamos “fodidos”, pois ele era advogado… 
Depois, a viatura da polícia chegou ao local e fomos para a 1° DP. Mesmo na delegacia, ainda descontrolado, ele nos ameaçou, falando que, se visse algum de nós na rua em outro momento, passaria por cima e que aquilo “não ia acabar ali”.
O nome do condutor que tentou por duas vezes nos atropelar e nos ameaçou com uma faca é Tiago Marcel Canabarro, assessor parlamentar do deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS). Ele se diz ciclista por já ter andado e competido de bike e, ironicamente, possuía adesivos de respeito ao ciclista no fundo do mesmo carro, com o qual quase passou por cima de integrantes do nosso grupo.
Temos fotos e vídeos de vários momentos que registram esse absurdo.”

Por Raulzito, continuamos

 

Depois de quase 15 anos de trabalho voluntário diário e de importantes conquistas na mobilidade urbana do DF, a perda do querido amigo Raul Aragão para a violência no trânsito nos deixa consternados. Por mais que argumentemos que a velocidade atual das vias é perigosa para todos, vidas continuam sendo perdidas.

Raul era uma força mobilizadora dentro do nosso grupo. Colocava sua alegria em tudo, a levava para onde ia, junto com a sua bicicleta – que carregava no coração. Ele se sentia vivo pedalando e lutando pelo espaço para quem pedala nesta Brasília tão centrada no carro. Fará muita, muita falta.

A Rodas da Paz luta pelo convívio pacífico entre os diferentes modos de se locomover. Em agosto de 2017, nosso Passeio anual teve como tema “Sem pressa, todo mundo chega bem”, definido em parceria com o grupo Caça-Pedal, da Ceilândia. O tema foi inspirado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda até 50 km/h como limite de velocidade para vias urbanas.

Se uma colisão acontece com o carro a 80 km/h, é praticamente zero a possibilidade de sobrevivência das pessoas atingidas. A 64 km/h, 85% morrem e ninguém sai ileso. No entanto, apenas 5% morrem e 30% ficam ilesos se a velocidade for de 32 km/h.

Mesmo quando não há infração, a alta velocidade permitida nas vias pode transformar a todos em vítimas.

Nada suporta o impacto violento de um carro veloz ao atingir um ser humano. O debate urgente a ser feito não é a roupa especial, o sapato ideal ou o equipamento de segurança recomendado.

A melhor maneira de proteção é e será sempre o respeito à vida e à mobilidade plural. Para que isso aconteça, é fundamental que haja velocidade compatível entre os diferentes veículos, motorizados ou não.

Nossas ruas deveriam impedir velocidades altas. Quando a velocidade é mais baixa, tudo fica mais fácil: a travessia de pedestres; o compartilhamento da via entre motoristas e ciclistas; o uso de meios sustentáveis de deslocamento – como caminhar, pedalar e usar o transporte público; a fluidez nos trajetos; e uma convivência humanizada por todas as cidades.

Somente com menos pressa teremos a chance de uma mobilidade respeitosa à vida. Reduza a velocidade, compartilhe a via e dê a preferência. Proteja a sua vida e a dos outros.

A cidade deve ser das pessoas. Vamos continuar inspirados por esse ideal – que era o compromisso de vida do alegre Raulzito.

Vá em paz, Raul. “Suave na nave”.

 

Brasília, 22 de outubro de 2017.

 

Com muita saudade e carinho,

voluntárias e voluntários da Rodas da Paz.